Bem vindo ao blog de Dartagnan da Silva Zanela, Cristão católico por confissão, caipira por convicção, professor por ofício, poeta por teimosia, radialista por insistência, palestrante por zoeira, bebedor de café irredutível e escrevinhador por não ter mais o que fazer.

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Com a palavra, Johann C. S. Zanela


"Mesmo que a mentira bata na verdade, mesmo que a injustiça insulte a verdade, mesmo que a ganância negue a verdade, ali estará ela, a Verdade".

Com a palavra, São Fulgêncio de Ruspe (467-532)


«Nesse dia, apresentareis em Meu nome os vossos pedidos ao Pai»

Em conclusão das nossas orações, dizemos: «Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho» e não «pelo Espírito Santo». Esta prática da Igreja universal não deixa de ter uma razão. A sua causa é o mistério segundo o qual o homem Jesus Cristo é o mediador entre Deus e os homens (1Tm 2,5), Sumo Sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedec, Ele que pelo Seu próprio sangue entrou no Santo dos santos, não num santuário feito por mão de homem, figura do verdadeiro, mas no próprio Céu, onde está à direita de Deus e intercede por nós (Heb 6,20; 9,24).

É a pensar no sacerdócio de Cristo que o apóstolo diz: «Por meio d'Ele ofereçamos sem cessar a Deus um sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o Seu nome» (Heb 13,15). É por Ele que oferecemos o sacrifício de louvor e a oração, porque foi a Sua morte que nos reconciliou quando éramos inimigos (Rm 5,10). Ele quis sacrificar-Se por nós; é por Ele que a nossa oferenda pode ser agradável aos olhos de Deus. Eis por que motivo São Pedro nos adverte nestes termos: «E vós mesmos, como pedras vivas, entrai na construção de um edifício espiritual por meio de um sacerdócio santo, cujo fim é oferecer sacrifícios espirituais que serão agradáveis a Deus, por Jesus Cristo» (1Pe 2,5). É por esta razão que dizemos a Deus Pai: «Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho».

PALAVRÓRIO EM LINHA RETA


Escrevinhação n. 946, redigido em 14 de maio de 2012, dia de São Matias.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Não! Não é isso! Espere aí, mas de que estamos falando? Ops.! Nos adiantamos um pouco com o andor. Então voltemos um pouquinho. Mas, de quanto é esse pouquinho? Depende do quanto estamos atrasados e perdidos em relação ao que está no centro da discussão.

Isso mesmo! Nosso olhar percorre as frenéticas imagens do mundo feito areia que segue seu curso pelo estreito orifício de uma cansada ampulheta. As imagens seguem seu caminho sem fixar-se em nosso ser e não temos esse desejo. Deixamos apenas que elas passem por nós com seu leve toque sem nunca perguntarmos o que, de fato, estava diante de nossas vistas, o que, realmente, testemunhamos.

Talvez, penso eu, seja essa palavra tão ausente do vernáculo pedagogesco hodierno: testemunho. Tudo aquilo que sabemos decorre de nosso testemunho pessoal. Se este for sincero, o conhecimento construído a partir dele será apolíneo. Entretanto, se o testemunho for todo falseado pelas inúmeras camadas de auto-enganos racionalizados, mais do que certeza que o construto será apenas um reflexo de nossas mentiras existenciais, jamais, um reflexo da realidade que foi testemunhada.

Não? Não é isso? Tudo bem, então deixemos de lado as imagens que nos circundam e reflitamos um pouco sobre esse ser esquisito e confuso chamado “eu”. Quem somos? O que somos? Como lembra Fernando Pessoa em seu Poema em linha reta, o mundo está cheio de semideuses, de pessoas perfeitas, que nunca cometeram um vexame e, com ele, confesso, estou farto destes tipinhos.

Se você é (ou não) um destes semideuses, experimente contar, para si mesmo, a sua história de vida pessoal juntando todos os elementos fragmentários que compõem sua parva personalidade. Se firmarmos nosso passo por essa vereda, perceberemos o quanto somos uma pessoa em pedaços, retalhada, incapaz de conseguir contar para si a sua própria história.

Não? Então finja que fará. Sim, um fingimento a mais, outro a menos, que diferença faz em uma sociedade onde a verdade é dispensável e a dissimulação fundamental, não é mesmo? Entretanto, a soma de muitas mentiras não forma uma verdade, do mesmo modo que a de auto-enganos racionalizados não constitui verdadeiramente uma pessoa.

Não? Então voltemos ao começo desta missiva e repensemos do que foi dito até aqui e em que medida essas palavras mal escritas dizem algo sobre nossa miséria pessoal. Ou nós seriamos inatingíveis semideuses vestidos de carne e ossos andando entre míseros mortais?

Pax et Bonum
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DO OLHAR PROFUNDO ÀS PALAVRAS VAZIAS


Escrevinhação n. 945, redigido em 08 de maio de 2012, dia de São Vitor e de Santo Acácio.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Muitas das vezes fico parecendo um disco furando, insistindo sempre na mesma nota de um velho fado. Sei disso. Mas, se assim o faço é por julgar que este ponto continua enroscado e é obvio que não imagino que esta mísera missiva irá por fim ao problema como também não nutro a mais leve esperança nesta direção.

Dito isso, vamos ao ponto: se há um troço que, de fato, estupidifica o indivíduo é o cultivo da tal criticidade. Afirmar isso, atualmente, soa como uma nota em descompasso frente à sinistra orquestra que embala a educação brasileira. Sim, não apenas sei disso como não tenho o menor intendo de fazer parte deste infausto concerto fúnebre.

Mas, porque o estímulo a tal criticidade é tão nefasto? Por que o incentivo a ter, como se diz, suas próprias opiniões, é algo tão malfazejo? Simples: qual o trabalho necessário para se “ter” uma dita cuja dessa? Sejamos francos: nenhum. Basta repetir um monte de frases feitas que você será visto como uma pessoa crítica, sabida, com opinião própria, mesmo que você não saiba o que está dizendo, de fato. Mesmo que suas opiniões sejam apenas um reflexo pálido daquilo que todos repetem simiescamente.

Tal quadro seria cômico se não fosse trágico, visto que, quando cultivamos um grande apreço pelas palavras vãs que tanto insistimos em pronunciar como sendo nossas sem nunca termos parado para dedicar a elas um mínimo de tempo para saber o que realmente elas dizem é porque, simplesmente, desistimos de conhecer qualquer coisa que seja mais importante que o nosso diminuto ego tão inflado pelo nosso patético orgulho.

Trocando por miúdos, não há possibilidade de conhecermos qualquer coisa se nossa atenção está voltada fundamentalmente para as impressões truncadas que temos sobre tudo (inclusive sobre nós mesmos). Impressões essas edificadas com base em nosso desdém pelo esforço que o ato de conhecer exige.

Não é possível enchermos uma xícara de chá se ela está tomada até as beiradas de excremento. E assim somos nós com a alma dominada por esses estranhos sombrios que nos habitam que chamamos amorosamente de nossas opiniões. Estranhos esses que são tão nossos que não sabemos dizer, quando, como e através do que, ou de quem, eles chegaram até nós.

Isso mesmo! Experimente, se você tiver coragem, submeter todas as suas ditas opiniões a esse simplório inquérito. Faça sozinho, pra não passar vergonha, uma lista desses trambolhos (suas opiniões) e pergunte, pra si mesmo: (i) Quando isso passou a integrar minha vida, a ser meu? (ii) Como, de que maneira, em que circunstância isso ocorreu? (iii) Quem, ou o que, me influenciou para que aderisse, ou aceitasse, isso?

É, cara pálida, e você ainda tem a desfaçatez de me dizer que esse opinativo trem fuçado é seu. Como diria o Seu Omar: Hum! Trágico!

Pax et bonum
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Com a palavra São Gregório Magno (c. 540-604), papa e doutor da Igreja - Homilias sobre os Evangelhos, nº 30


«O Espírito Santo [...] vos ensinará tudo, e há-de
recordar-vos tudo o que Eu vos disse.»

O Senhor promete justamente que o Espírito «há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse.» Porque, se este Espírito não tocar o coração dos que escutam, vã é a palavra dos que ensinam. Portanto, que ninguém atribua àquele que ensina o que a boca do professor lhe fez compreender: se não houver Alguém que nos ensine por dentro, a língua do que ensina trabalha no vazio.

Vós todos os que aqui estais, escutais a minha voz da mesma maneira; e, no entanto, não entendeis da mesma maneira o que escutais. [...] Quer dizer que a voz não instrui, se a alma não receber a unção do Espírito. A palavra do pregador é vã se não for capaz de acender o fogo do amor nos corações. Os discípulos que diziam: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» (Lc 24,32) tinham recebido esse fogo da própria boca da Verdade. Quando se ouvem tais palavras, o coração abrasa-se, o torpor frio abandona-o, o espírito já não consegue encontrar repouso e dá por si a desejar os bens do Reino dos céus. O amor verdadeiro que o preenche arranca-lhe lágrimas [...] Como fica feliz por escutar esse ensinamento que vem do alto e esses mandamentos que, em nós, se transformam numa tocha que nos inflama [...] de amor interior. A palavra chega ao nosso ouvido e o nosso espírito, transformado, consome-se numa doce chama interior.

UMA QUESTÃO SORUMBÁTICA


Escrevinhação n. 944, redigido em 30 de abril de 2012,
dia de São José Benedito Cotolengo e de São Pio V.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Existem certos insultos que perderam o seu poder. Falar que a mãe está vendendo cerveja a deizão e demais dizeres deste calão não mais afetam, de fato, a brasílica alma. Aliás, quando afetam, pode ter certeza que é pura afetação. Teatrinho barato para impressionar os olhares circundantes para posar de bom-moço ofendidinho.

Todavia, se você quer mesmo ver um brasileiro sinceramente irritado, de preferência os portadores daquele troço chamado diploma, mande-o ler, digo, sugira a leitura de um livro, principalmente se ele está opinando sobre um assunto que ele nunca estudou, mas insiste em palestrar sobre. Dependendo do elemento, este é capaz de entregar-se às lágrimas, porque ler, neste país, de um modo geral, não é um ato integrante da vida humana, não mesmo. É um fardo similar ao de Sísifo.

Aqui, ler é uma esquisitice de gente que, como se diz, quer se aparecer. Não passa pela cabeça dos bem (de)formados, e devidamente diplomados, que mais importante que opinar vagamente sobre todo e qualquer assunto, é conhecer. Para tanto, antes de qualquer coisa, é de fundamental importância calar, silenciar nosso íntimo e ouvir através de nossas vistas o que os livros têm a nos dizer. Entretanto, quem realmente quer aprender? Quem? Não responda.

Agora, se perguntarmos quantos querem apresentar as suas “opiniões” sobre isso ou aquilo, a lista não acaba mais. Somos carentes, ridiculamente mimados, com a alma minguada de substância humana. Somos cópias caricaturais dos personagens da obra “Recordações do escrivão Isaías Caminha” de Lima Barreto. Todos ocos, fingidos e dissimulados, a ostentar uma imagem tão risível quanto nossa real condição.

Por essas e outras que os insultos tradicionais perderam a sua eficácia. A baixeza dificilmente ofende-se com o que se assemelha a ela. Todavia, não há dúvida alguma de que o vulgo há de ofender-se com a virtude e tudo mais que simbolize a grandeza. Por isso, para acabar com uma conversa, basta sugerir ao seu interlocutor a leitura de um livro (ou mais) sobre o assunto em discussão que ele, provavelmente, irá baixar os olhos e entregar os betes.

No entanto, para tal, é imprescindível que tenhamos lido alguns livros. Aliás, é de basilar importância que cultivemos a arte de ler da mesma forma que cultivamos todas as outras futilidades que preenchem os nossos dias. Bem, é justamente aí que a porca torce o rabo. Quem, realmente, nesta terra de tchutchucas e mensalões, quer viver uma vida que seja mais que o simulacro, que a fantasia ególatra onde, civicamente, celebramos o nosso fracasso existencial que tanto subiu à nossa cabeça e inflamou nossa alma? Eis aí uma questão sorumbaticamente deixada em aberto.

Pax et bonum
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