Bem vindo ao blog de Dartagnan da Silva Zanela, Cristão católico por confissão, caipira por convicção, professor por ofício, poeta por teimosia, radialista por insistência, palestrante por zoeira, bebedor de café irredutível e escrevinhador por não ter mais o que fazer.

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TRÊS OBSERVAÇÕES RASCUNHADAS





Para uma pessoa que vive à toa, sem eira, nem beira, tudo restringe-se a ação e inação desprovida de qualquer propósito maior, vendo a si mesmo como princípio e fim tudo. Para uma alma, de fato, religiosa não. Para esse tipo de indivíduo, todo ato deve ser vivido em ação de graças, reconhecendo ou, ao menos, esforça-se piamente para aprender que não é, nem que queira, uma criatura autossuficiente. Que, antes de qualquer coisa, ele é fundamentalmente um devedor ingrato do Senhor como qualquer um.

(ii)
O oração, para todo cristão, é o pão de cada dia de sua fé.

(iii)
Toda a noite, com a família, é boa. Muito boa. Mas, uma noite, ao som duma suave chuvinha que se derrama, preguiçosa, cantando ao cair na calçada, é uma dádiva que não podemos desprezar. Que devemos saber apreciar. Só isso. E com isso, tudo o mais.


(*) Professor, caipira, escrevinhador e bebedor inveterado de café.

LIBERDADE OFFLINE



Apure! Apure logo! Essa, talvez, seja a expressão mais presente na boca de muitos. Queremos que tudo chegue até nós rapidinho, na velocidade dum clique, tal qual os brinquedinhos eletrônicos que, hoje, fazem parte da paisagem contemporânea. Inclusive o entendimento e a compreensão de tudo o que nos cerca.

Seja na cidade ou no campo; nas ruas, restaurantes ou lanchonetes; mesmo numa modesta casinha, coberta ou não com sapé, lá encontraremos uma ou mais pessoas virtual e supostamente acompanhadas e, ao mesmo tempo, substantivamente sós. Bem solitas com a mesmice de suas vidas.

Pois é, pois é, pois é. Poderíamos, nessas breves linhas, listar todos os potenciais benefícios e os possíveis malefícios que as mídias eletrônicas podem nos oferecer. Poderíamos, mas não o faremos. Não, porque isso seria um desperdício de tempo e ele, o tal do tempo, é um ativo muito precioso para desperdiça-lo com assuntos que serão sumamente desprezados por aqueles que, de fato, deveriam por eles interessar-se e, não o fazem, por preferirem desperdiçar o referido ativo que, pessoalmente, procuro tanto valorizar.

Se assim o querem, que o façam; mas não com o meu. Não mesmo. E lhes digo o porquê. Na medida de minhas limitações procuro valorizar o meu minguado tempo. Desde menino, lembro-me do dito de Abraham Lincoln, ensinado a mim por meu pai, onde esse aconselha-nos dizendo que apenas os desocupados não tem tempo pra nada. Por isso, com a medida que me foi dada, procuro achar tempo pra tudo. Pra tudo mesmo.

Hoje, com as madeixas e barba um tanto esbranquiçadas, mantenho estampada na parede de minha biblioteca uma máxima de Goethe, que diz: “quando você não sabe o que fazer, faça o que é do seu dever”. Simples assim. E mantenho-a bem diante dos meus olhos para não esquecer o ensinamento a tanto tempo dado a mim por meu pai e que hoje repasso aos meus pequenos.

E, como todos nós bem sabemos, dum modo geral, celulares e redes sócias normalmente não casam muito bem com a ideia de senso de dever, apesar da possibilidade existir.

Geralmente, nossas quinquilharias eletrônicas de cada dia nos convidam, hoje e sempre, para a excitação efêmera de nossos sentidos, tornando-nos incapazes de compreender qualquer coisa em profundidade, de pararmos para ouvir devidamente uns aos outros. Não por culpa delas em si, não mesmo, mas sim e principalmente, por causa de nossa leviandade nada original.

Aquela doçura, que nos verdes anos de minha vida, acompanhava sempre o vagaroso e atento aprendizado das coisas, que andava de mãos dadas com o vagar das conversas despretensiosas, mesmo que acaloradas, ao que tudo indica, não mais faz parte dos verdejantes anos da atual mocidade e, muito menos, daqueles que, pelo avançar da idade, maduraram sem ter, com o devido uso do tempo, amadurecido.

Prefere-se, hoje, que a vida seja composta apenas por um punhado de cliques fugazes, sem sentido, arrolados de modo efêmero para que o eu não seja nada além de um ego inchado de si para si, todo empavonado com clichês politicamente corretos pra melhor encobrir a falsa existencial.

E antes que, através da lonjura das letras, ecoe aquele mimimi na forma dum “apure”, dum “termine logo essa choça”, lembremos e, se possível, não esqueçamos, que tudo aquilo que imploramos pra findar logo, acaba, muito mais rapidamente, terminando com o pouco que resta de nós em nós mesmos.

Pronto. Acabei. Já estou offline. Agora, se quiser, pode voltar para a monotonia ansiosa duma vida embalada pelas ondas dum wifi que não procura, não encontra e não quer ter tempo pra nada.


(*) Professor, caipira, escrevinhador e bebedor inveterado de café.

QUATRO NOTINHAS SOBRE ASSUNTOS DISTINTOS





AOS 91 DE IDADE, EIS QUE FICA um vazio nas páginas impressas no Brasil. Cony, que também era Heitor, não mais escreve entre nós. Carlos Heitor Cony morreu. As letras no Brasil ficaram mais pobres, mais fracas e com menos graça com sua partida para Academia Celeste de Letras.

(ii)
QUALQUER UM QUE CONTA COM A morosidade do judiciário pra se dar bem é um canalha. Agora, quando o sujeito se gaba publicamente da lentidão duma possível decisão do referido poder, não passa dum psicopata sem estilo, sem categoria, sem nada além da sujeira egolátrica do seu umbigo.

(iii)
NUM ANO ELEITORAL, SEJA ELE QUAL FOR, sempre acabamos por mostrar, pra todos que desejarem ver, o quão infantil somos no que tange as nossas inclinações ideológicas e predileções políticas e partidárias.

Em períodos como esse, acabamos agindo feito uma chusma de crianças mal criadas que anseiam apenas pela confirmação de nossos desejos. Só isso. Nunca, ou raramente, queremos a realidade dos fatos. Especialmente se esses fatos ousarem desmanchar o nosso castelinho eleitoreiro de areia. E se isso ocorrer, aí, meu amigo, é um Deus nos acuda.

Enfim, por essas e outras que meu lado moleque não se empolga tanto assim com essas criancices politiqueiras. E, se me empolgo, sei que logo, bem logo, acabo me arrependendo.

Aliás, tolo é aquele que não lamenta e não se penitencia pelos equívocos cometidos nessa, ou em qualquer outra seara e, por não nos penitenciarmos, acabamos repetindo e repetindo os mesmos desatinos em contextos diferentes. Especialmente na esfera política.

(iv)
NÃO CONFUNDAMOS, JAMAIS, FIDELIDADE partidária com cumplicidade criminosa. Uma coisa não tem nada que ver com a outra. A primeira sinaliza um claro compromisso com princípios. A segunda indica um vergonhoso pacto entre partes escusas que se limpam mutuamente na própria sujeira.


(*) Professor, caipira, escrevinhador e bebedor inveterado de café.

PRA MELHORAR SÓ UM CADINHO




Penso que o maior ato de misericórdia que podemos manifestar com relação a nossa classe política, por cada um de seus membros, é a desconfiança ou, como diria Michael Joseph Oakeshott, uma atitude cética em relação as suas promessas, suas atitudes e referente as suas possíveis e supostas qualidades.

Poderíamos dar uma de Bombril e apresentar aqui mil e uma justificativas para agirmos desse modo. Poderíamos, mas, nessa missiva, iremos preferir pecar não pelo excesso, mas sim, pela modéstia preguiçosa.

Toda vez que um sujeito - seja ele uma figura pública, ou um militante duma causa política qualquer, envenenado até a medula com utopias caducas e ideologias furadas - vem pro nosso lado com todo aquele papo pra lá de furado, ao mesmo tempo azedo e meloso, é bom nos pararmos de louco e, mais do que depressa lembra-lo das palavras do profeta que, adverte-nos, dizendo (Jeremias XVII; 5): “Maldito o homem que confia no homem e procura apoio nos mortais, cujo coração se afasta de Javé”.

Explico-me: a sociedade moderna, como é sabido por todos com um mínimo de bom senso, vem sendo arrebatada e arrebentada por uma onda secularizante que, há muito, tomou conta do Ocidente e, por isso, acabamos por ter um distanciamento da vida religiosa que, por sua deixa, fez-nos, cada um ao seu modo, distanciar-se da presença de Deus (como se isso fosse possível).

Aliás, como certa feita havia dito G. K. Chesterton, conforme Deus foi sendo banido de nossa vida, dos espaços públicos, o Estado foi tomando o Seu lugar e sendo divinizado. Sim, e no Brasil, muito mais do que em outros rincões.

Tal atitude teve como consequência o trágico fato de que muitas pessoas passaram a levar uma vida embalada por aquilo que Bento XVI chamou de “ateísmo prático”, ou seja, o indivíduo afirma crer em Deus e, em muitos casos, até dissimula bem, praticando ordinariamente os ritos de sua confissão, porém, vive como se Ele não existisse. Todos sabemos muito bem como é isso.

Vale lembrar que, mesmo vivendo assim, desse modo levianamente à toa, nosso coração continuam a procurar a plenitude que apenas pode ser encontrada Nele e em nada mais, como bem nos ensina Santo Agostinho em sua obra Confissões.

Continuamos a procurar, em todo lugar, mas o fazemos nos lugares errados, deificando, de modo muito chumbrega, figuras midiáticas, bugigangas adquiridas de modo voraz num consumismo oco, causas políticas, ideologias totalitárias e, é claro, divinizamos figuras políticas que, ao nosso ver, representam tudo justamente por serem nada.

Bem, aí estão os devotos das capelinhas do Butantã da estrelinha dos últimos dias que não nos deixam mentir sozinho. Todos sabem muito bem do amor idolátrico que eles tem pelo seu Exu maior.

Detalhe importante: essas capelinhas mundanas são exemplares nesse quesito, a idolatria dum mandrião populista, mas não estão sós na maresia que tomou conta do nosso triste país.

E não apenas isso. Vejam só como são as coisas: brigamos por causa duma bugiganga, ficamos ofendidos por causa de palavras que ferem a cartilha supra moralista do politicamente correto, ficamos enervados por causa de gostosuras sexuais, descemos das tamancas por causa de partidos políticos e caudilhos demagógicos, enfim, fazemos tudo isso por essas tranqueiras porque é somente até essa lonjura que nossa vista alcança. Toda essa é a profundidade de nossa existência. Meu Deus! Que feiura.

Mais do que isso. Não conseguimos avançar para além dessas viseiras e, por isso, nada que vá além delas não nos toca, porque, não nos importa, quão limitado é nosso senso das proporções, tão curta é nossa razão.

Resumindo: é isso o que acontece quando qualquer tranqueira ocupa o centro pulsante de nosso existir na ilusão de que ela irá preencher-nos de sentido.

É isso o que acontece quando desistimos de procurar plenitude Naquele em que real e unicamente poderíamos encontrar repouso.

Por essas e outras considero uma imensa impiedade depositarmos sobre os ombros da classe política, de qualquer grife partidária, uma cega confiança. Mesmo que os danadinhos queiram e gostem disso.

Aliás, se não somos céticos em relação a um e outro membro dessa casta é porque, de fato, desprezamos o bem público e ignoramos o tal do próximo, que juramos de pés juntos amar.

Mais do que nossos votos, muito mais do que uma militância canina, o que essas figuras precisam, para o bem d’alma deles e de todo o futuro de nossa triste nação, é que os tratemos com grande desconfiança, pois nós, enquanto povo mais ou menos cidadão, já fomos inúmeras vezes mordidos por essas cobras, por todas, das mais variadas peçonhas ideológicas.

Tal atitude não mudará substancialmente nossa cambaleante sociedade mais ou menos democrática, sei muito bem disso. Mas, creio eu, irá, com toda certeza, melhorar um cadinho a qualidade de nossas atitudes ditas cidadãs.


(*) Professor, caipira, escrevinhador e bebedor inveterado de café.

ATÉ AQUI FOI O QUE VI



POSSO ESTAR INCORRETO NO QUE DIGO, CORRO O RISCO DE ESTAR errado e, por isso, que as exceções a essa torpe regra perdoem o desatino que agora lavro, mas, a cada dia que finda e passa, tenho mais e mais a impressão de que meretrizes como a tal de política, politicagem e politicalha, atraem justamente as mais levianas almas que não deram certo em nada mais na dita cuja da vida e, por isso, tais almas, põem-se alegre e dissimuladamente a parasitar o que é de todos, não de um ou de poucos, sob a desculpa de estar supostamente servindo ao bem comum, ao tal do povo.

Triste imagem dessas almas, criaturas essas que simplesmente gostam de gozar a vida, sem ter nada de sólido construído com as próprias mãos que não seja um punhado de mentiras, alicerçadas em outras tantas, que tomam por base a falsidade de uma vida vivida fazendo gentileza com o chapéu dos outros, com o chapéu daqueles que lavoram diariamente, para, desse modo, garantir o gozo fátuo duma vida sem serventia, vida vazia daqueles que dizem ao povo servir com alegria quando, na verdade, dele se servem ao mesmo tempo que o fazem de bobo.

Minhas palavras podem ser imprecisas, sei disso, como com certeza lacunas há nessas breves considerações vadias, porém as meninas de minha vista, obstinadas que são, não me permitem negar a triste imagem que vi no correr dos anos de minha porca vida, vivida sem bonomia. Imagens e cenas que vi até aqui, que não me deixam mentir e não me permitem sorrir.


(*) Professor, caipira, escrevinhador e bebedor inveterado de café.

NÃO FOI E, PROVAVELMENTE, NÃO SERÁ




O GRANDE PROBLEMA DO NOSSO PAÍS, do nosso não tão amado Brasil, é que seus problemas, grandes e pequenos, são praticamente insolúveis. E o são não porque as soluções não existam ou que as mesmas sejam impensáveis. Não é nada disso não.

Aqui, nessa terra de botocudos, qualquer probleminha torna-se uma baita encrenca porque, na maioria dos casos, não temos meios para resolvê-los e nem sabemos como fazê-lo e, se isso já não basta-se, imaginamos, tola e soberbamente, saber exatamente o que deve ser feito, mesmo que não saibamos por onde deveríamos começar.

Seria mais ou menos assim: muitos dos indivíduos que teriam os meios para realizar tal empreitada não desejam abrir caminho algum para a resolução das pendengas nacionais porque, para eles, é muito vantajoso que o circo fique na lona. Mesmo assim, lá estão eles, fazendo a pose de estadistas responsáveis ou de cidadãos comprometidos com o bem comum.

Outros, que detêm os meios, mas não tem vontade, boa vontade, não querem ser fritados à toa, como eles mesmos diriam, por aqueles que sugam a vitalidade da nação e, por isso, desavergonhadamente, fazem-se de Pilatos, lavando suas levianas mãozinhas.

Há também aqueles que, infelizes que são, simplesmente ficam à deriva, aguardando melhores dias e torcendo para não naufragar de maneira mais que indigna. Por isso, acreditam em qualquer populista de ocasião, flertam com toda ordem de charlatão, porque a única coisa que esperam do amanhã é que, se possível, ele chegue sem dar-lhes um tombo muito feio.

E não nos esqueçamos de todos aqueles, que não são poucos, que apenas esperam um cadinho duma tetinha para poder degustá-la deitadinho, do alto da soberba de sua mediocridade, algo que não lhe é devido, mas que, não se sabe porque cargas d’água, acreditam lhe ser merecido.

Por fim, em meio a esse caudal de gente pusilânime e oportunista, que dá forma, ou deforma, a brasilidade, temos inscrito praticamente em todas essas gentes, mal e porcamente descritas aqui, uns mais outros menos, aquela presunção fantasiosa que faz qualquer sujeito crer ser o detentor da solução para todas as pendências da nação sem, ao menos, um dia ter cogitado a resolução de um pequenino problema vivido por ele em sua vida civicamente pueril. Solução essa, hipoteticamente válida, somente nas horas perdidas numa mesa etílica qualquer.

Bem, por essas e outras que a brasilidade, na pequenez de cada uma de suas individualidades, é a encarnação mais que perfeita daquele verso de Manoel Bandeira que nos adverte dizendo que vivemos uma vida que poderia ter sido, mas não foi. E, ao que tudo indica, nunca será. Ao menos, não tão cedo quanto imaginamos querer.


(*) Professor, caipira, escrevinhador e bebedor inveterado de café.

A LUZ QUE ALUMIA O FIM DA TARDE






A TARDE CAIU. CAIU A TARDE EM NOSSO RINCÃO. Caiu mansa e vagarosa no ritmo com cansaço dos festejos da virada do ano novo.

Em meio a esse marasmo, num dado momento dessa tarde vadia, esta eu na cozinha de meu rancho para pegar mais uma xícara de café antes de voltar para meu escritório, pra minha toca de livros e papéis velhos e, então, eis que ouço o toque da campainha. Pilililim! Pilililim!

Vou na direção da porta. Meu filho também vai. Vai dizendo que ele iria atende-la. Mesmo assim, fui junto. Afastei a cortina e espiei pela janela para ver quem era.

Era a vizinha. A vizinha de frente que nos trazia a capelinha de Nossa Senhora Aparecida.

Estalei meus olhos. Nossa! No primeiro dia do ano, dia de Santa Maria mãe de Deus, somos honrados com tamanha graça.

Confesso, sem medo algum de parecer esquisito, ou algo parecido, que fui tomado por uma alegria indescritível e, por isso, findo por aqui mesmo esse colóquio sem mais nada dizer a não ser que agradeço a Deus por essa bênção que, eu e minha família, hoje recebemos.


(*) Professor, caipira, escrevinhador e bebedor inveterado de café.