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O AVESSO DAS PALAVRAS
Escrevinhação n. 990, redigida em 02 de fevereiro de 2013, dia da Apresentação do Senhor, de Nossa Senhora de Belém e da Bem-aventurada Maria Domenica Mantovani.
Por Dartagnan da Silva Zanela
Quanto mais uma palavra é utilizada, mais epidérmico torna-se seu significado. Sua única serventia é encobrir, mal e porcamente, a turva alma de seu repetidor. De mais a mais, como bem nos ensina o filósofo Tarcísio Padilha, em seu livro “Filosofia, Ideologia e realidade Brasileira”, quando se fala muito em liberdade, democracia, ética, amor, respeito, educação, etc., desconfiemos! Provavelmente, os valores representados por elas estão sendo distorcidos ou mesmo, como ocorre em muitos casos, sorrateiramente eliminados.
Em regra, essas palavras são repetidas a exaustão não porque o sujeito acredite piamente no que elas representam, mas sim, porque ao aderir ao coro da vanguarda papagaiesca ele sente-se uma pessoa, como direi: muito legal, superior a todos por, supostamente, respeitar as diferenças, menos aquelas que não se enquadrem em seu imaginário distorcido, que não ascendam aos píncaros da (in)compreensão de seu intelecto amortecido pelo uso excessivo de expressões não significativas que pouco, ou nada, dizem a respeito da realidade, mas que externam, sutilmente, o universo subjetivo de sua alma carcomida pelo rancor.
Penso que este fenômeno tem uma relação umbilical com o hedonismo crescente da sociedade atual e que, por sua deixa, colabora de modo profícuo com a expansão do relativismo moral. Aliás, eis aí um ponto que merece ser meditado à luz do que fora exposto acima. Uma alma embebida no néctar hedonista coloca a necessidade de satisfazer sua ânsia por prazer como valor primeiro, invertendo, de modo sórdido, a ordem axiológica, como bem nos ensina Miguel Reale em sua obra “Filosofia do Direito”. Ora, eleger a busca pelo prazer como causa final da existência é um poderoso elemento desagregador da personalidade. Basta, para perceber esse óbvio ululante, apenas uma pequena dose de sinceridade.
Doravante, tão rápido quanto um corisco, estes escudam-se com aquele relativismo moral chinfrim, para o qual, todos os valores são relativos e toleráveis, desde que a sua forma de viver e interpretar a vida seja aceita de maneira absoluta por todos, sem hesitação. Resumindo: tolera-se tudo, menos o que os contraria.
Essa é a ditadura do relativismo, a apologia duma moral autônoma e egocêntrica, como nos lembra o Papa Bento XVI, que anseia por edificar uma visão redutivista do ser humano através dum sorrateiro uso de expressões ambíguas para melhor dissimular as reais intenções que estão, melindrosamente, por traz de todo esse bom-mocismo forçado. Bom-mocismo que despreza o bem ao mesmo tempo em que diz representá-lo. No fundo, é isso que se encontra no fundo desta alcova rasa.
Esse trem é tão ridículo que chega a dar vergonha do compadre. Sei disso. Porém, não nos preocupemos, porque o grotesco também está sendo relativizado para que ninguém se sinta mal diante da verdade revelada pelos fatos.
Pax et bonum
Site: http://zanela.blogspot.com
e-mail: dartagnanzanela@gmail.com
É proibido proibir?
Por João Pereira Coutinho
É um dos vícios do mundo moderno: a crença patética de que tudo é possível, tudo é permissível. Ou, como diziam os filhos do maio de 68, é proibido proibir.
Um caso ilustra esse vício com arrepiante precisão: as "barrigas de aluguel".
Li a excelente matéria de Patrícia Campos Mello publicada nesta Folha no domingo. E entendo a pergunta que anima o negócio: se um casal não pode ter filhos por infertilidade da mulher, por que não contratar os serviços de uma "mãe de aluguel", que terá o seu óvulo fecundado pelo espermatozoide do pai adotivo?
Na Índia, a pergunta virou turismo: só na cidade de Anand, conta a jornalista, nasce uma criança a cada três dias para "exportação". Os "clientes" costumam ser americanos, britânicos, japoneses, canadenses. Mas também há brasileiros na lista de espera. Que dizer do cortejo?
Começo pelas questões éticas básicas: será que um filho deve ser comprado (US$ 20 mil na Índia) como se compra uma mala Louis Vuitton ou um par de sapatos Manolo Blahnik?
E será legítimo, ó consciências progressistas, transformar as pobres do mundo em incubadoras dos filhos dos ricos? [continue lendo]
A Igreja Católica e a escravidão
Por Ricardo da Costa
Vivemos em uma época conturbada. Qualquer coisa afirmada levianamente ganha auréola de verdade. O deputado Jean Wyllys (PSol-RJ), por exemplo, se valeu de um trecho de uma mensagem do Papa Bento XVI para uma série de afirmações bombásticas. O Papa defendera a “estrutura natural do matrimônio” – a união entre um homem e uma mulher – e disse que sua equiparação a outras formas radicalmente diversas de união constituía uma “ofensa contra a verdade da pessoa humana e uma ferida grave infligida à justiça e à paz”. Parafraseando o Papa, o deputado escreveu no Twitter que “ferida grave infligida à justiça e à paz foi a escravidão de negros africanos apoiada pela Igreja Católica”. Jean Wyllys não está só. Essa é uma das acusações costumeiras que costumam ser feitas à Igreja. Ela teria, segundo seus detratores, apoiado o sistema escravocrata, especialmente o ocorrido na África entre os séculos 16 e 19. Mas a verdade é exatamente o contrário disso.
O Cristianismo herdou do Antigo Testamento prescrições atenuantes no que dizia respeito à escravidão. Com a ascensão social e política da Igreja na Idade Média, a pressão a favor dos pobres, das mulheres e dos escravos tornou-se maior. Por exemplo, uma lei do século 6.º (sob influência da Igreja) afirmava que nenhum escravo poderia ser preso caso estivesse em um altar católico. Na Alta Idade Média (séculos 5.º ao 10.º), o catolicismo pressionou as sociedades cristãs a considerarem a escravidão algo ultrajante aos seres humanos, já que, pela fé em Jesus Cristo, todos são filhos de Deus. [continue lendo]
Espírito e personalidade
Por Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 31 de janeiro de 2013
O espírito é aquilo que só chega a nós pelo pensamento, mas que o pensamento, por si, não pode nem criar nem alcançar. O espírito é a verdade do pensado, a qual, por definição, está para além do pensamento, mesmo nos casos em que este cria o seu próprio objeto.
Quando, por exemplo, criamos mentalmente um triângulo, este já traz em si todas as suas propriedades geométricas que o pensamento, nesse instante, ainda ignora por completo; e quando ele as tiver descoberto uma a uma, ao longo do tempo, terá de confessar que estavam no triângulo em modo simultâneo antes que ele as apreendesse. E mesmo quando ele apreende uma só, apreende algo que está no triângulo e não nele próprio.
Não há, na esfera do mental, nenhuma diferença entre pensar o falso e pensar o verdadeiro. O pensamento só se torna veraz quando toca algo que está para além dele, algo que não se reduz de maneira alguma ao ato de pensar e nem ao pensamento pensado. Esse algo é o que chamamos "verdade". Como se vê no exemplo do triângulo, a verdade está para além do pensamento até mesmo quando o objeto deste é criado pelo próprio pensamento: o pensamento não domina e não cria a veracidade nem mesmo dos objetos puramente pensados. A verdade só aparece para além de uma fronteira que o pensamento enxerga mas não transpõe. A verdade é o reino do espírito. [continue lendo]
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