Bem vindo ao blog de Dartagnan da Silva Zanela, Cristão católico por confissão, caipira por convicção, professor por ofício, poeta por teimosia, radialista por insistência, palestrante por zoeira, bebedor de café irredutível e escrevinhador por não ter mais o que fazer.

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A sociedade atual está menos preparada para a morte


Por Umberto Eco

A "Magazine Littéraire", uma publicação mensal da França, dedicou um número recente a um único assunto: como a literatura trata o tema da morte. Eu o li com interesse, mas afinal fiquei desapontado. Alguns artigos podem ter tocado ideias com as quais não tinha familiaridade, mas em última instância eles apenas reiteraram uma tese bem conhecida: que além de abordar a ideia do amor a literatura sempre lidou com o conceito de morte.

Os artigos apontavam a presença da morte tanto nas narrativas do século passado como na literatura gótica pré-romântica, mas também poderiam ter citado a mitologia grega - talvez a morte de Heitor e o luto de Andrômaco - ou o sofrimento dos mártires em muitos textos medievais. Para não falar no fato de que a história da filosofia começa com a premissa do mais fundamental dos silogismos: "Todos os homens são mortais".

Talvez o problema tenha origem no fato de que as pessoas leem menos livros hoje do que nas gerações passadas. Seja qual for a causa, porém, perdemos nossa capacidade de aceitar a morte. A religião, a mitologia e os antigos rituais tornavam a morte, senão menos temível, pelo menos mais familiar para nós. Através de grandes celebrações fúnebres, do lamento dos enlutados e das grandes missas de réquiem, nos habituávamos ao conceito de morte. Éramos preparados para ela pelos sermões sobre o inferno, e ainda criança fui incentivado a ler trechos do "Companheiro da Juventude" que abordavam a morte. [continue lendo]

A VERDADE DUM CORAÇÃO ENFERMO


Escrevinhação n. 1000, redigida em 08 de abril de 2013, dia da festa da Anunciação do Senhor, de Santa Júlia Billiart e de Santa Cacilda.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Os anos passam como tudo o mais. As gélidas mãos de Cronos, que por nossa face deslizam, deixam suas marcas próximas às janelas da alma para que compreendamos que tudo que um dia alvorece irá, cedo ou tarde, crepuscular. A recusa em aceitar a passagem dos anos como um dos fatos mais belos da existência é uma das comédias mais tristes que já foram encenadas nos palcos da vida. Tristeza risonha que hoje, muito mais que em qualquer época, representa incansavelmente as infindáveis reprises deste enfadonho espetáculo.

Envelhecer é preciso, lembra-nos Nelson Rodrigues. Sim! Se recusamo-nos a envelhecer nos tornamos pessoas pouco generosas, nada heroicas e tão pouco humanas, tal qual vemos atualmente pelas ruas, nas redes sociais, nos protestos junto ao Congresso e em nosso mórbido cotidiano que, mesmo amarelado pelos dias que se foram, continua infecto com as utopias pueris de antanho.

Triste é a vida da alma que vê sua carne perecer sem permitir-se amadurecer. Triste é o homem que teme sacrificar o rapagão que habita em seu coração para que o adulto nasça. Não que ser jovem seja ruim. Nada disso. A questão é que uma árvore, frondosa ou não, só mostra seu viço se a semente morre e o caule envergar. Negar-se a isso é recusar às sementes que estão por vir à visão daquilo que podemos ser.

Lembro-me que em minha porca juventude desejava que aqueles revoltos dias fossem perenes. Imaginava que iria alentar aquelas utopias tolas, em misto com outras fantasias parvas, pelo resto de minha vida. Imaginava que o mundo não era melhor simplesmente por não estar em mãos similares às minhas. Coisa de moleque mesmo.

Os anos devem passar para que aprendamos, mesmo que à duras penas, que aquilo que chamamos, quando jovens, de justiça, heroísmo e sabedoria, não passava de brutalidade, covardia e orgulho. Ora, que sabedoria, justiça e heroísmo há numa multidão que enxovalha uma única pessoa e cala-se frente a uma multidão de escândalos? Confesso: esses tipos (célebres ou anônimos), não me representam com seu linchamento midiático show.

Se formos francos (sei que é difícil), reconheceremos que esse tipo de impostura, hoje, se tornou regra geral. A tolerância que se faz reinar nestas plagas, no uso dissimulado de dois pesos e muitas medidas, não é hipócrita. É cinismo puro e simples. Infelizmente não são poucos os que insistem em posar com estas vestes nesta corte de muitas majestades e que chamam a esse circo de república cidadã.

Doravante, amadurecer, antigamente, era sinônimo de aprendizado adquirido com a experiência dos anos que lapida a personalidade do indivíduo. Hoje, não mais. Basta curtir o momento, exibir uma pose de indignação, fazer uma ceninha de bom-mocismo, ser a favor de qualquer coisa modernosa e pronto! Tornamo-nos cidadãos críticos.

Se José Ortega y Gasset hoje vivesse, daria a nós o mesmo conselho que deu, em seu tempo, à juventude espanhola: “Prestad noblemente vuestro auxilio a los que son los menos contra los que son los más.” É claro que ele não seria compreendido, pois reconhecer a enfermidade de nossa alma seria o primeiro passo para curá-la que, necessariamente, deve passar pela imersão nas águas da verdade oculta em nosso coração, para que a luz não mais seja odiosa aos nossos adoecidos olhos.

Pax et bonum
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DAS LÁGRIMAS DERRAMADAS SOBRE A SEPULTURA ANÔNIMA OCULTA

BLÓGICOS VERSOS - II


A verdade caminha vagarosamente
Silenciosamente ela anda
Pelos corredores da mente
Sussurrando ela nos chama.

Por Dartagnan Zanela, em 08/IV/2013

Reforma do Código Penal Brasileiro - Padre Paulo Ricardo


BLÓGICOS VERSOS - I


O inflamado e envaidecido ego
Não ouve o ressoar do eco
Do pedido desesperado
Gritado bem ao seu lado.

Por Dartagnan Zanela, em 08/IV/2013.

CONFISSÕES DUM OLHAR ANÔNIMO


Escrevinhação n. 998, redigida em 27 de março de 2013, dia de São Ruperto.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Penso que não há nada mais deprimente que vermos um indivíduo adulto, pleno de suas capacidades, choramingando, lamentando que a vida, no seu entender, não lhe regalou tudo aquilo que ele imagina merecer. Se formos francos, todos nós, vez por outra, acabamos por cair nesta esparrela. Tal fato, em si, já seria suficientemente vergonhoso. Porém, como todos sabem, há indivíduos que fazem do lamentar um estilo de vida. Aí, nestes casos meu amigo, o vexame não é pouco.

O ato de reclamar, que hoje foi elevado a uma categoria cívica, nominada pela elegante alcunha de reivindicar, em si, não apresenta nenhuma qualidade excelsa se pararmos pra pensar. Aliás, lembro-me, com muita gratidão, dos ensinos a mim ministrados por meus pais que me diziam, quando infante, que não há mérito algum em legislar em causa própria. Podemos resumir a lição, que sempre guardei comigo desde meus tempos de guri, nos seguintes termos: a dignidade fundamental de um indivíduo não está no ato (depre)cívico de reivindicar. Exigir que outrem nos tutele é algo que exala tardios ares púberes. O cumprimento de nossos deveres é que nos elevam em dignidade e verdade.

Doutra parte temos aqueles que, por sua posição de destaque (elites de toda ordem), não se distinguem de modo algum no quesito descrito acima. Para ser franco, é mais vergonhoso ainda, visto que, a partir do momento em que um indivíduo encontra-se numa posição política, econômica, social ou de prestígio, goste ou não da idéia, está investido de certas responsabilidades morais para com os demais membros da sociedade.

De mais a mais, esse é o sentido da existência de uma elite. Ser membro duma significa que as obrigações, os fardos de seus membros, são necessariamente maiores em relação aos demais membros da sociedade, como nos ensina a Sagrada Escritura, quando esta nos lembra que àqueles que muito foi dado, muito será cobrado.

Do mesmo modo, tanto Leão XIII, em sua Encíclica Rerum Novarum, como Bento XVI, na Deus Caritas Est, afirmam o princípio de que todo aquele que foi abençoado materialmente tem um dever moral para com aqueles que se encontram desamparados. O cumprimento, abnegado, deste dever, em si, é uma alegria e não devem ser motivada, jamais, por uma mediana atenção da opinião pública ou das potestades Estatais. Não mesmo. Estes devem ser feitos por amor àquele que está diante de nossas vistas. Nada mais, nada menos que isso. 

Por sua deixa, o Papa Francisco, em sua homilia do dia 24 de março nos lembra que amamos muito mais nossos ganhos que ao próximo e, conseqüentemente, Deus, nesta historieta, acaba ficam em enésimo lugar, quando lembrado. Infelizmente, nossa egolatria em misto com a Estatolatria reinante nos convida a esquecer que a realidade é muito mais densa que nossos mimados desejos, mais preciosa que todos os objetos de consumo que circundam e, por fim, muito mais ampla que as limitações tirânicas das potestades Estatais.  

Por fim, a regra latina que afirma que devemos dar, a cada um, o que lhe é devido, nesta cultura do mútuo choramingo, sofreu uma atualização ou, como direi, um alargamento, rezando que se deve dar, a cada um, o que nos é querido. Trocando por dorso: queremos receber toda ordem de regalos materiais, devidos ou não, desde que não sejamos obrigados a nos responsabilizar por nada e, se possível, por ninguém.

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