Bem vindo ao blog de Dartagnan da Silva Zanela, Cristão católico por confissão, caipira por convicção, professor por ofício, poeta por teimosia, radialista por insistência, palestrante por zoeira, bebedor de café irredutível e escrevinhador por não ter mais o que fazer.

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BLÓGICOS VERSOS - I


O inflamado e envaidecido ego
Não ouve o ressoar do eco
Do pedido desesperado
Gritado bem ao seu lado.

Por Dartagnan Zanela, em 08/IV/2013.

CONFISSÕES DUM OLHAR ANÔNIMO


Escrevinhação n. 998, redigida em 27 de março de 2013, dia de São Ruperto.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Penso que não há nada mais deprimente que vermos um indivíduo adulto, pleno de suas capacidades, choramingando, lamentando que a vida, no seu entender, não lhe regalou tudo aquilo que ele imagina merecer. Se formos francos, todos nós, vez por outra, acabamos por cair nesta esparrela. Tal fato, em si, já seria suficientemente vergonhoso. Porém, como todos sabem, há indivíduos que fazem do lamentar um estilo de vida. Aí, nestes casos meu amigo, o vexame não é pouco.

O ato de reclamar, que hoje foi elevado a uma categoria cívica, nominada pela elegante alcunha de reivindicar, em si, não apresenta nenhuma qualidade excelsa se pararmos pra pensar. Aliás, lembro-me, com muita gratidão, dos ensinos a mim ministrados por meus pais que me diziam, quando infante, que não há mérito algum em legislar em causa própria. Podemos resumir a lição, que sempre guardei comigo desde meus tempos de guri, nos seguintes termos: a dignidade fundamental de um indivíduo não está no ato (depre)cívico de reivindicar. Exigir que outrem nos tutele é algo que exala tardios ares púberes. O cumprimento de nossos deveres é que nos elevam em dignidade e verdade.

Doutra parte temos aqueles que, por sua posição de destaque (elites de toda ordem), não se distinguem de modo algum no quesito descrito acima. Para ser franco, é mais vergonhoso ainda, visto que, a partir do momento em que um indivíduo encontra-se numa posição política, econômica, social ou de prestígio, goste ou não da idéia, está investido de certas responsabilidades morais para com os demais membros da sociedade.

De mais a mais, esse é o sentido da existência de uma elite. Ser membro duma significa que as obrigações, os fardos de seus membros, são necessariamente maiores em relação aos demais membros da sociedade, como nos ensina a Sagrada Escritura, quando esta nos lembra que àqueles que muito foi dado, muito será cobrado.

Do mesmo modo, tanto Leão XIII, em sua Encíclica Rerum Novarum, como Bento XVI, na Deus Caritas Est, afirmam o princípio de que todo aquele que foi abençoado materialmente tem um dever moral para com aqueles que se encontram desamparados. O cumprimento, abnegado, deste dever, em si, é uma alegria e não devem ser motivada, jamais, por uma mediana atenção da opinião pública ou das potestades Estatais. Não mesmo. Estes devem ser feitos por amor àquele que está diante de nossas vistas. Nada mais, nada menos que isso. 

Por sua deixa, o Papa Francisco, em sua homilia do dia 24 de março nos lembra que amamos muito mais nossos ganhos que ao próximo e, conseqüentemente, Deus, nesta historieta, acaba ficam em enésimo lugar, quando lembrado. Infelizmente, nossa egolatria em misto com a Estatolatria reinante nos convida a esquecer que a realidade é muito mais densa que nossos mimados desejos, mais preciosa que todos os objetos de consumo que circundam e, por fim, muito mais ampla que as limitações tirânicas das potestades Estatais.  

Por fim, a regra latina que afirma que devemos dar, a cada um, o que lhe é devido, nesta cultura do mútuo choramingo, sofreu uma atualização ou, como direi, um alargamento, rezando que se deve dar, a cada um, o que nos é querido. Trocando por dorso: queremos receber toda ordem de regalos materiais, devidos ou não, desde que não sejamos obrigados a nos responsabilizar por nada e, se possível, por ninguém.

Pax et bonum
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O SILENCIADO GRITO DOS INOCENTES

A (IM)PIEDADE DOS GESTOS


Escrevinhação n. 996, redigida em 25 de março de 2013, dia de Santo Irêneo de Sírmium, de São Dimas e da Solenidade da Anunciação do Anjo à Virgem Maria.

Por Dartagnan da Silva Zanela


Ao deitarmos nossas vistas nas helênicas linhas de “As Leis”, de Platão, nos deparamos com um homem profunda e sinceramente preocupado com a formação das almas infantes. O discípulo de Sócrates afirma que deveríamos ser treinados desde a infância na virtude, o que tornaria o indivíduo desejoso da perfeição. E conclui afirmando que seria vulgar e servil chamar de educação uma formação que desleixasse deste intento. Ora, uma formação que vise somente à aquisição de regalos materiais e financeiros, que vise apenas o vigor e a formosura física ou simplesmente alguma habilidade mental despida de sabedoria seria indigna de receber a alcunha de educação.

Sabedoria não é algo que se ministra com uma lição recortada numa disciplina escolar, ou dissolvida na forma dum eixo temático a ser trabalhado como uma reles curiosidade (depre)cívica. Tanto um quanto o outro, aprende-se através da mediação silenciosa do exemplo e do testemunho dos gestos e ações. O mesmo pode-se afirmar quanto ao magistério das virtudes cardiais.

Obviamente que, os gestos exemplares que dão testemunho do que é uma vida virtuosa, não estão apenas depositados sob o costado dos professores. Não apenas eles, mas, todos nós, damos nossa contribuição para o ensino destas sutis e basilares lições.

Para tornar essas considerações mais palatáveis, permitam-me recorrer a um exemplo que, para meu gosto, é de grande importância. Estamos a viver a Semana Santa. Estamos às portas da sexta-feira da Paixão de da Páscoa de Nosso Senhor. Para quem confessa a Fé em Cristo, este é um tempo que exige uma postura toda apropriada para essa época litúrgica.

Bem, aí entra o pomo da questão: com que gestos, com que práticas, nós, adultos praticantes da fé, ensinamos nossos mancebos a amar Àquele que se entregou em sacrifício no madeiro da cruz por nós? Preparamo-nos para viver, intimamente, com o Messias, a Sua dolorosa paixão e sua gloriosa ressurreição, ou simples aguardamos a chegada de mais um feriado mundano totalmente desprovido de sacralidade?

Tornou-se fala comum nas rodas cotidianas de colóquios, flácidos ou não, afirmar que a geração de idade mais tenra vê-se transviada, perdida. Entretanto, não vemos com tanta freqüência as mesmas rodas indagar sobre o que os adultos esclarecidos fazem para evitar, ou mesmo minimizar, esse quadro.

Os gestos revelam o que somos com uma sinceridade que nossos lábios jamais são capazes de externar. Eles revelam o quanto que nossa vida religiosa, muitíssimas vezes, é postiça e artificiosa, um adereço de aceitação social que apenas reflete nossa apatia frente ao sentido sacro da vida. Na maioria das vezes, não se pratica uma religião, apenas declara-se ter uma.

Nossos gestos estão o tempo todo gritando ou Hosana, ou Crucifica-o, como nos ensina Peter Kreeft. Quando damos ao vulgar a mesma relevância que deveria ser dada ao espiritual, estamos ensinando que o primeiro deve ocupar um lugar central em nossa vida em detrimento do segundo. Estamos ensinando que a pérola de grande preço (Matheus XIII; 46), em nossa vida, não tem valor algum, estejamos cientes disso, ou não.

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SEU NOME É FRANCISCO


Escrevinhação n. 995, redigida em 18 de março de 2013, dia de São Cirilo de Jerusalém.

Por Dartagnan da Silva Zanela

As portas do inferno não prevalecerão (Matheus XVI; 18). Para todo aquele que confessa a Fé com o coração na mão, essas palavras são de uma clara significação. As crises vêm e vão, os céus também, mas Ele permanece.

Infelizmente, muitos que publicamente confessam a Fé na Igreja ouvem essas palavras com a mesma leviandade que assistem a um telejornal. Não são poucos os catolicãos que, a muito, falava Agripino Grieco. Católicos que ao morrer, chegando ao céu tem a enorme surpresa de verificar que Deus existe mesmo.

Ora, é mais que compreensível que um não-católico não leve com a necessária seriedade os ensinamentos daquela que é Mãe e Mestra. Entretanto, é motivo de escândalo uma pessoa que se declara católica e vive numa inconfessa apostasia chegando, literalmente, a cingir sua vida pela trilha de valores diametralmente opostos aos ensinamentos de Nosso Senhor, desprezando e fazendo pouco de seu magistério.

É diante deste quadro que o predecessor do Papa Francisco I, convocou um ano da Fé, um tempo para aprofundarmos nossa fidelidade e confiança em Cristo através de muito estudo e oração. E, neste ano, Bento XVI renuncia a cátedra de São Pedro pedindo a cada um de nós um ato de Fé neste grande mistério que é a Santa Madre Igreja. Bem, aí ouso indagar: quantos rezaram pelo Conclave? Quantos jejuaram e se penitenciaram? Creio que muitos, porém, imagino que muito maior foi o número dos catolicãos que apenas acompanharam os últimos acontecimentos com uma reles curiosidade mundana.

Em meio a este entrevero, eis que temos um Papa feito da mesma cepa de Bento XVI, por mais que a grande mídia diga o contrário. Homem que não teme apontar o nome do nosso grande inimigo, o demônio. Citando uma passagem da obra do escritor francês Leon Bloy, lembra-nos que quem não reza ajoelha-se ao príncipe das trevas. Homem que veio para servir e lutar o bom combate comandando um exército que confessa Cristo Crucificado.

Quanto a seus gestos, são mais do que humildes. Sinalizam claramente ao que veio. Bento XVI deixou o comando da nau petrina porque tinha uma inabalável fé de que o Espírito Santo indicaria alguém à altura dos combates atuais. Com uma cruz de ferro, despido de aparatos, ele se apresenta para o combate, tal qual fez São Francisco de Assis, que deixou suas armas de ferro para pelejar pelo Evangelho.

Um homem humilde como seu predecessor e, como ele, alguém que não fala com língua bipartida e que não verga sua cabeça para agradar aos interesses mundanos. Alguém que labuta para seguir os passos do poverello de Assis, o primeiro a carregar os estigmas de Nosso Senhor Jesus Cristo em sua carne.

São Francisco de Assis era um humilde servo de Cristo, não um simplório capacho do mundo ou uma caixa de ressonância de slogans politicamente-corretos. Francisco amava os pobres sem odiar (ou invejar) os ricos. Ele amava a todos em Cristo e por Cristo. Esta, penso eu, é a luz que se faz luzir a partir do início do pontificado de sua Santidade e, por essas e muitas outras que as portas do inferno não prevalecerão, compreendamos o que isso quer dizer ou não.

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As três lições de Deus para este Conclave

Fonte: Site do Padre Paulo Ricardo

A Basílica de São Pedro deu espaço mais uma vez à procissão vermelha dos príncipes da Igreja. A cor recorda o sangue dos mártires, sobretudo de Pedro, de quem se escolherá o sucessor, neste momento grave para história dos cristãos. A fumaça branca, que anuncia a escolha do novo papa, pode sair a qualquer momento. A hora, no entanto, ainda é um mistério. E é assim que deve ser, como tudo aquilo que pertence aos desígnios de Deus. Apesar das quedas de seus membros e dos muitos escândalos que são repetidos a todo instante, é Cristo, o Supremo Pastor, quem governa a sua Igreja, e não a vontade daqueles que a compõem.

Os meios de comunicação, entretanto, insistem no contrário. Por isso, não é surpreendente ler matérias que tragam especulações maledicentes sobre o Conclave. Para uma imprensa sem visão espiritual, a escolha de um Papa não passa de uma disputa de poder. Eles medem a Igreja pela própria régua. E é assim que os jornais não têm o mínimo pudor de se comportarem quase como uma Capela Sistina paralela, a todo momento emitindo suas fumaças sobre o próximo sucessor de São Pedro. Engana-se, portanto, quem presta ouvidos aos seus sinais. Não é a Cristo que pertence a fumaça da imprensa, mas a um outro. Mas o que esperar de uma mídia que não perde sequer uma oportunidade para humilhar e cuspir no rosto da Igreja as imoralidades das quais ela - a imprensa - é a primeira defensora? [continue lendo]

NA ENCRUZILHADA DO DESTINO


Escrevinhação n. 995, redigida em 11 de março de 2013, dia de Santo Eulógio.

Por Dartagnan da Silva Zanela

Monteiro Lobato, quando estava no interior, imerso em bucólicos ares, afirmava que lia compulsivamente só por birra, de modo similar a um bêbado em encharca as vísceras para distanciar-se da mesquinhez que o circundava. Embebia sua alma com o licor das letras todo santo dia. Destilava incansavelmente o melaço de sua escrita em um ritmo todo seu de aprimorar-se.

Muitos, como o pai do Sítio do pica-pau amarelo, preferem o silêncio de um retiro do mundo nele estando, para cultivar amorosamente a cultura, a terceira natureza humana. Através dela, da cultura, vemos os vários reflexos de nós nas faces dos muitos “eu” possíveis que se apresentam mediante nossas escolhas tão livres quanto graciosas. Nesta gratuidade de nosso devir pagamos por todas nossas escolhas.

Doravante, como nos lembra Alceu Amoroso Lima (o Tristão de Athayde), a cultura revela três atitudes fundamentais ao homem: a que o liga a terra (economia), a que o liga a si e com os outros homens e a que o religa a Deus. Por isso, a cultura representa a plenitude do humano na sua condição de ser físico, moral, intelectual e espiritual. É através desta terceira natureza que realizamos as nossas mais elevadas potencialidades.

Em vista disso, muitos nutrem a crença de que tudo o que fazemos é, de certo modo, pré-determinado pelo meio, pelas forças que nos influenciam dos mais variadas formas. Todavia, não é assim que o fandango segue. Somos influenciados, sim, pelas mais variadas forças, desde aquelas de ordem genética até as obras de engenharia social que abundam no mundo atual, porém, não somos determinados por elas. São nossas escolhas, decisões e omissões, que dão força a essas influências.

De mais a mais, o que torna tal crença curiosa é o fato de seus proponentes romperem com todo peso que eles afirmam determinar nossa humanidade. Ora, das duas, uma: Ou eles são sobre-humanos, tocados pela Divina Providência, ou simplesmente reles orgulhosos prepotentes.

É muito cômodo afirmar que somos apenas objetos inermes. Entretanto, tal afirmação, na inteireza de suas palavras, revela apenas o patético que há em nós. Preferimos, muitas vezes, nos escorar em uma muleta ideológica e, desde modo, esquivarmo-nos de nossa integral responsabilidade pelo destino advindo de nossas escolhas.

Ao nos fazermos de leitão pra mamar, seja de pé ou deitado, estamos apenas permitindo que forças mundanas, alienantes por sua natureza, nos arrastem para longe de nosso centro existencial.

Contrapondo-nos a isso, não estaremos mudando o mundo, obviamente. Apenas adolescentes tolos e adultos sínicos se permitem arrastar por essa leviandade. Todavia, se estivermos cônscios de que temos no âmago de nossa alma, e em nosso entorno, forças em luta para dilacerar-nos, poderemos, quem sabe, realizar de modo mais lúcido e responsável as escolhas que integrarão e moldarão nossa personalidade, de modo similar ao nosso bravo e silencioso Monteiro Lobato.

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