Bem vindo ao blog de Dartagnan da Silva Zanela, Cristão católico por confissão, caipira por convicção, professor por ofício, poeta por teimosia, radialista por insistência, palestrante por zoeira, bebedor de café irredutível e escrevinhador por não ter mais o que fazer.

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OLHARES PERDIDOS EM UMA SALA VAZIA




Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

Uma das coisas que mais me encanta em uma sala de aula, mesmo depois de duas décadas lavorando em suas cercanias, é a variedade de olhares que dão forma e brilho a paisagem desses ambientes, fechados para o mundo presente e imediatista e que, na medida de seus limites, possibilita a abertura das almas infantes para inúmeros outros mundos que se fazem luzir em seus olhares miúdos.

Vendo-os, fico a imaginar o que está se passando por aquelas cabecinhas que, caprichosas, ficam a fintar com seus olhinhos para a movimentação que toma conta, algumas vezes, dos corredores ou do pátio. Noutras vezes procuro, de modo quase que paterno, tentar ler os anseios, angustias e aflições que estão presentes nas profundas águas dessas alminhas e que se fazem refletir em seus cândidos zoínhos.

Dessa multidão de janelinhas da alma, naturalmente, há algumas que, à sua maneira, marcaram mais profundamente o meu espírito do que outros, devido à singularidade de sua expressão e da história que me foi revelada silenciosamente.

Sempre me encanta quando vejo os infantes concentrados realizando uma atividade proposta. As pálpebras baixam à meia luz acompanhada por uma leve inclinação da sua cabecinha, fervilhante de ideias e traquinagens, sobre o caderno como se ele estivesse campeando grilos no meio do capinzal ao cair da tarde. Sereno, ao seu modo. Desligado de tudo, para poder ligar-se totalmente com aquele momento que é só dele e de ninguém mais.

Nessas cenas também não temos como não nos admirar com a forma como a gurizada segura seu lápis que, em regra, tem sempre uma das extremidades toda marcada pelas suas dentadas.

Uns colocam toda a pressão possível sobre a escrita, outros fazem deslizar o grafite sobre a folha do caderno como se esse fosse um pincel a bailar em uma tela e, dum jeito ou de outro, o momento é sempre atendido pela boca entreaberta do pequenino que, com seu olhar, tudo acompanha pra que a tarefinha fique pra lá de bonita. Ou não.

Além desses olhares, temos outros mais. Temos aqueles olhinhos inquietos que, ao ouvirem a explicação inicial dum conteúdo novo, sentem-se perdidos e, ao mesmo tempo, curiosos diante de algo que até então não era do seu conhecimento.

Outras vezes, esse mesmo tipo de olhar, manifesta-se quando o infante recebe a sua avaliação e, aturdido, não compreende como ele pode ter errado aquelas questões e, por isso, não se conforma com a nota que conquistou.

Há também aqueles infantes que deixam à vista os seus introspectivos olhares onde, de modo mui discreto, somos capazes de ver os seus sonhos transbordando de sua imaginação e, noutras vezes, como eles mesmos dizem, somos capazes de ouvir suas divagações quando estão a pensar na vida. Na tal da vida.

Não menos frequente, temos os olhares perdidos, desorientados de tudo. Crianças que pouco sabem sobre si, ou que muito sabem e preferem esquecer. Crianças que muitas vezes miram para o futuro e, não veem nada além de um cenário vazio de pura desolação.

Sejam quais forem os olhinhos que compõem a paisagem duma sala de aula, eles sempre são acompanhados, ou seguidos, por um doce sorriso, ou por uma careta brincalhona, típica da inocência das almas que não sabem, e nem estão muito preocupadas, com o que o amanhã lhes reserva, mas que, mesmo assim, muito dele esperam.

Seja como for, não sei o que dizer quando vejo esses olhinhos, não sei dizer se o futuro a eles pertence ou não.

Enfim, espero apenas que todos esses pequenos possam chegar nesse tempo, no tal do futuro, e nele mergulhar sem cerimônia para poderem fazer dos dias que estão por vir a realização dum sonhado presente que, no passado, era apenas um suave brilho num olhar infantil.


(*) Professor, caipira, escrevinhador e bebedor inveterado de café.

GASTRIMARGIA E OUTROS BICHOS



Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

(i)
ESTAVA CÁ COM MEUS ALFARRÁBIOS a matutar: o que será que mulheres da envergadura intelectual duma Edith Stein, ou duma Simone Weil, diriam a respeito do feminismo contemporâneo, de um modo geral, e de figuras como Judith Butler, de modo particular. O que será? Não sei não, mas, algo me diz que o dito seria muito, muitíssimo interessante e que elas, as engajadas e empoderadas hodiernas, possivelmente, num primeiro momento, não iriam se sentir muito confortáveis com a possível preleção. Por isso, penso eu, que a leitura das obras dessas senhoras, necessariamente, deveriam ser lidas e levadas em consideração, obras essas que, por sua deixa, são sumamente ignoradas por essa época que, por meio de inúmeros organismos e entidades internacionais, não mede esforços para advogar em favor da tal ideologia de gênero, como se essa fosse uma espécie de verdade ocultada por milênios e que, agora, somente agora, foi revelada profeticamente pela soberba e iluminada filosofia contemporânea.

(ii)
NA PROCURA PELA ORIGINALIDADE, a filosofia, as humanidades, acabaram se perdendo do rumo que nos leva ao encontro com a verdade.

(iii)
PODEMOS RESUMIR MUITOS DOS entreveros intelectuais e morais que assolam os dias atuais com as lacônicas palavras de São Paulo, palavras essas onde o mesmo nos lembra que, sim, podemos tudo, mas nem tudo convém.

(iv)
Abstinência e moderação não matam. Nunca mataram. Já a gastrimargia, sim, pode matar-nos. E já matou muita gente.


(*) Professor, caipira, escrevinhador e bebedor inveterado de café.

O RISO É A MELHOR ARMA




Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

(i)
O SILÊNCIO QUE INVADE NOSSA ALMA numa noite solitária tem lá o seu charme, pouco importando qual seja a estação do ano em que nos encontramos com ele. E seu charme permanece a coroar-nos até o momento em que a silente soledade é quebrada, sem a menor cerimônia, por uma companhia – por uma má companhia – tão inesperada quanto indesejada, com sua luminosidade eletrônica manifesta através do brilho duma tela fria, sem vida, com seus inconvenientes sinais sonoros que tem o claro intento de nos inebriar com suas efêmeras ilusões digitais.

(ii)
QUANDO SE AFIRMA QUE O TRABALHO FILOSÓFICO de Judith Butler é um trem lindo de doer é porque se tem uma noção muito caipora do que seja o tal do filosofar, e do que seja a dita cuja da filosofia, ou porque se possui uma desconjuntada compreensão do que seja a tal da boniteza. Das duas, uma. Ou as duas.

(iii)
A GRANDEZA QUE PODERÁ COROAR o amanhã pode muito bem ser parida pelos erros de ontem. Tudo depende do que nós estamos fazendo com os ditos cujos no presente. Depende do que estamos fazendo com o nosso hoje.

(iv)
AQUELES QUE NÃO QUEREM SER conquistados pelo esplendor da verdade acabarão, cedo ou tarde, escravizados pelas sombras do erro e da farsa.


(*) Professor, caipira, escrevinhador e bebedor inveterado de café.

NÃO SOU BOM COM NOMES




Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

PROCURO ESFORÇAR-ME PARA SER UM HOMEM DE FÉ, temente a Deus, confessando a religião que herdei de meus pais, cônscio das limitações inerentes a mim e dos limites que constituem minha herança.

Sei que sou um ser restrito. Sei que que o acumulo de experiências humanas no intento de se reencontrar com Deus tem seus contornos. Sei também que o poder e o amor infinito do Divino não cabem, de jeito algum, em nossa limitadíssima capacidade de compreensão, como também não cabem dentro das fronteiras da criação; por isso, procuro não me esquecer que minha fé, e a religião que herdei, não abarcam a totalidade da realidade e, muito menos, que elas não podem tomar o lugar do fundamento último desta, que é Deus.

Por essas e outras que rio, rio muito e por misericórdia, da tigrada que diz, com a boca cheia de não sei o que, que apenas acredita nisso ou naquilo porque seja suposta e cientificamente provado, ou comprovado, ou demonstrado, ou que tenha remotas evidências de o sê-lo.

Essas pobres almas ignoram que, gostem ou não, a ciência, enquanto via de conhecimento, e principalmente enquanto um reles símbolo de auto afirmação pueril, é tão limitada, se não mais restrita, que qualquer religião ou doutrina sapiencial. Mais limitada, inclusive e principalmente, que a religião Cristã.

Também ignoram, ou não o sabem, ou fingem não saber, que eles também são criaturinhas limitadas e, possivelmente, assim procedem, devido a soberba em que elas encontram-se embebidas que não lhes permite enxergar essa obviedade ululante: que elas são limitadas tanto quanto, senão mais, em alguns casos, que uma pessoa que se ajoelha em sinal de humildade perante o Criador da criação.

Aliás, tão limitadas quando o tongo que escrevinhou essas linhas e, talvez, essa última observação, seja justamente a que lhes cause mais desconforto e indignação.


(*) Professor, caipira, cronista e bebedor inveterado de café.

ATÉ A ÚLTIMA GOTA


Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

(i)
VOU TE DIZER UMA COISA: amor não é uma cocegazinha que dá na barriga, nem um friozinho que sobe pela espinha. O nome disso é queredeira. Não amor.

Amor é a disposição graciosa de sacrificar-se abnegadamente pelo bem amado. Confundir isso com excitação é perversão mundana.

E te digo mais uma: por essas e outras que o amar é tão mal compreendido hoje em dia. Ele foi mutilado pela mentalidade hedonista moderna que doentiamente imagina que o saciar de todos os nossos desejos e apetites seja algo equivalente ao sublime dom.

Enfim, resumindo o entrevero: o sexo faz parte do amor, porém está muitíssimo longe de poder sê-lo em sua totalidade.

Se bobear, até os cães sabem disso, menos a humanidade do terceiro milênio.

(ii)
UMA COISA É AMAR ALGO E, COM humildade e dedicação, procurar reforma-lo na medida de nossas limitações e nos limites da coisa amada, para não acabar deformando-a. Outra, bem diferente, é ansiar por reduzir a coisa amada a imagem e semelhança de nossa mesquinhez e, não conseguindo fazê-lo, revoltar-se contra ela, afastando-se dela e criando uma caricatura daquilo que o soberbo aspirante a amador não conseguiu reduzir ao tamanho de sua incapacidade de amar.

(iii)
O QUE ESPERAR DO ANO QUE ESTÁ POR VIR? Que ele chegue com modéstia e parta com discrição e, se possível for, sem criar muita confusão.

(iv)
SABER COMO LER PESSOAS É ALGO tão importante quanto ser capaz de interpretar uma linha escrita. Ler um olhar é tão imprescindível no mundo atual quanto saber analisar uma imagem.

(v)
COM TODO RESPEITO, MAS FASCISTA é o fiote da sua progenitora e o fiofó do seu genitor. Ponto.


(*) Professor, caipira, cronista e bebedor de café.

O ROSTO REFLETIDO NO ESPELHO




Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

(i)
QUANDO MOLEQUE, SEMPRE QUE eu via na escola o mapa mundi, imaginava que metade do globo terrestre era ainda desconhecido, haja vista que, para mim, apenas metade do globo teria sido mapeado, e que, um dia, eu poderia explorá-lo e, quem sabe, descobrir novas terras e novos mundos.

Minha imaginação procedia de modo similar quando via o mapa do Brasil ou do Estado do Paraná. Imaginava, na inocência de minha meninice, que um município era apenas o pontinho que representava a cidade e que, todo o restante da área multicolor do mapa representava áreas ainda inexploradas que estavam apenas esperando pela ousadia dum Darta veio da vida.

Enfim, confusões cognitivas da tenra infância que, ao seu modo, até hoje me ensinam uma preciosa e imorredoura lição que me vacinou contra as tentações ideológicas e delírios utópicos que tão facilmente pervertem o velho e bom senso das proporções.

Lembro-me sempre, quando rememoro essa doce lembrança de meus idos pueris, que a realidade é sempre muito mais ampla, profunda e complexa que as nossas vãs racionalizações sobre ela. Racionalizações que são paridas por meio das confusas sínteses feitas por nós através de nossa desordenada percepção e preguiçosa apreciação de tudo e a respeito (ou despeito) de todos.


(*) Professor, caipira, cronista e bebedor de café.

APENAS UMA ÂNFORA QUEBRADA


Por Dartagnan da Silva Zanela (*)

(i)
AMIGOS SÃO AQUELAS PESSOAS QUE riem-se umas das outras, sem a menor cerimônia, porque se amam. E se amam não por causa de suas possíveis virtudes, mas sim, apesar de seus inumeráveis defeitos. Qualquer um que não compreenda isso, provavelmente, nunca teve um amigo de verdade e não sabe sê-lo verdadeiramente.

(ii)
NÃO HÁ PROBLEMA ALGUM EM DEFENDER uma causa política, como não há entrevero nenhum em filiar-se a um partido e, muito menos, em advogar a favor de uma ideologia política. Não mesmo.

Aliás, qualquer pessoa minimamente razoável sabe muito bem disso.

O grandessíssimo problema reside no fato de que, em muitíssimos casos, o sujeito que advoga em favor de uma causa, que adere a um partido e que defende com unhas e dentes uma ideologia, acaba colocando essas coisinhas acima da verdade, no lugar da realidade e num lugarzinho muito além do bem e do mal.

Aí, meu amigo, idiotia pouca é bobagem e, qualquer um com um mínimo de bom senso, percebe isso de longe.

(iii)
DOIS DE NOVEMBRO. FOMOS AO CEMITÉRIO. Todos nós. Acendemos velas pelas almas de nossos finados e levamos flores em honra de suas memórias. Feito isso, segui só, por entre as lápides, recitando, silenciosamente, o Santo Rosário, meditando sobre o grande mistério da morte e rememorando alguns momentos que compartilhei com aqueles que já partiram desse vale de lágrimas.

Ao fim, quando decidimos partir, vejo ao longe minha princesinha Helena sentada no chão, com as perninhas cruzadas, de frente para a lápide da sepultura da vovó que partiu antes de poder conhecê-la. Confesso: uma cena que imortalizou-se em minha alma.

Aproximei-me vagarosamente dela, flexionei meus joelhos e coloquei minhas mãos sobre seus ombrinhos. Ela não levantou seus olhos nem disse nada.

Perguntei-lhe se estava bem e ela disse que sim. Perguntei se queria que eu levasse-a no colo até o carro e ela disse que não. Apenas levantou-se e segurou firme em minha mão direita para irmos ao outro cemitério de nossa cidade.

E assim ela foi, inocente como uma perdiz e firme feito uma rocha, silente e altiva como alguém que muito cedo mergulha e familiariza-se com os grandes mistérios da vida. Vida que não finda aqui.


(*) Professor, caipira, cronista e bebedor de café.